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Sem ação, populações morrerão de fome, não só de coronavírus, diz diretor de programa da ONU




Programa Mundial de Alimentos estima que pandemia leve outros 130 milhões de pessoas à falta de alimentos




Em 2019, 135 milhões de pessoas em 55 países e territórios venderam seus últimos bens para conseguir comprar comida ou já não tinham mais acesso a nenhum alimento. Entre as razões para essa crise alimentar, estão conflitos políticos e sociais, mudanças do clima e a deterioração econômica.
Não havia na conta ainda o impacto da pandemia de Covid-19, que em 2020 fechou fronteiras, parou economias inteiras, deixou populações sem trabalho e pode levar outras 130 milhões de pessoas à falta de alimentos.
É um risco que o diretor-executivo do Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU, David Beasley, classificou como “fome de proporções bíblicas” ao Conselho de Segurança.
Em entrevista à Folha, o diretor regional para América Latina e Caribe da instituição, Miguel Barreto, diz que uma pandemia de fome, aliada à sanitária já em curso, vai resultar em muitas mortes por falta de comida.
“Se não atendermos rapidamente essas populações [em risco], muito provavelmente vamos ter também populações que morrerão de fome.”
Miguel Barreto, diretor regional para América Latina e Caribe do Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU - Divulgação
Barreto chama a atenção para a dificuldade de realizar trabalhos humanitários com as fronteiras fechadas e as aglomerações proibidas e alerta para a necessidade de ampliar os programas de transferência de renda, principalmente em regiões com um alto índice de trabalhadores informais, como a América Latina.
“O principal problema no mundo é o acesso ao alimento. Se não há renda, não se consomem alimentos.”
O que apontou o Relatório Global de Crise Alimentar 2019? Esse é um informe que se faz a cada ano através de avaliações de 16 organizações internacionais e que foca a cada ano países que se encontram numa situação mais crítica. O que resultou em 2019 é que 135 milhões de pessoas em 55 países sofriam de fome moderada, quando estão vendendo seus últimos bens para comprar comida, ou aguda, quando não têm mais acesso ao alimento. O que se prevê, devido ao impacto da Covid-19, é que este número dobre no próximo ano.
A estimativa é que passem a ser 265 milhões as pessoas em crise alimentar, o que o diretor do PMA classificou como “fome de proporções bíblicas”. Qual é o impacto disso? O impacto real é que, se não atendermos rapidamente essas populações, muito provavelmente vamos ter também populações que morrerão de fome. É justamente o risco que o diretor-executivo falou sobre a pandemia de fome, que não somente vai haver causa de morte por Covid-19, vão aumentar as causas de morte por falta de alimentos.
Por isso é tão importante atuar com o apoio das agências que trabalham em situações críticas e também por meio das redes de proteção nacionais.
Houve uma queda entre 2017 e 2018 na quantidade de pessoas em crise alimentar, número que volta a subir em 2019. A que o senhor atribui esse aumento? Basicamente a três fatores: ao aumento nos conflitos no mundo, ao impacto das mudanças climáticas particularmente e à deterioração da situação econômica e social em alguns desses países.
O relatório afirma que 47 países estão em risco de entrar em crise alimentar devido a algum fator extra, além desses três. A pandemia pode ser esse fator? Sim, sem dúvida devido particularmente ao isolamento social que está em vigor em muitos países e à redução do rendimento econômico que se prevê já, de acordo com muitas organizações, com um impacto na renda de famílias mais vulneráveis. O principal problema no mundo é o acesso ao alimento. Se não há renda, não se consomem alimentos. Por isso que se prevê uma deterioração.
Há regiões, como a América Latina, onde há um grande número de trabalhadores informais, portanto o agravamento [da crise] vai ser ainda pior em países onde o nível de economia informal é alto, porque não podem trabalhar, não podem gerar renda.
​​Quais são as principais consequências de uma crise alimentar devido ao coronavírus? A falta de emprego e de renda em economias que funcionam, a dificuldade de recursos financeiros para atender lugares onde há conflitos ou com inundações e onde se requer maior quantidade de recursos para que se possa seguir apoiando essas populações, que neste momento estão em crise, porque não podem contar com o mercado porque o mercado está afetado pela falta de trabalho.
Como se dá a inserção do fator Covid-19 em lugares que já estão em crise? Nas áreas de conflito, os mercados estão quebrados. Isso significa que as populações precisam diretamente de assistência alimentar. Se existe um aumento de casos de Covid-19 nesses países, provavelmente vai haver um impacto correlativo.
Então, é preciso repensar as modalidades de intervenção. Por exemplo, uma área muito importante é a alimentação escolar, que fornecemos em áreas de conflito. Mas não podendo ter pessoas aglomeradas, o que se está fazendo agora é aumentar a forma de assistência. Por exemplo, entregar alimentos nas casas dessas pessoas ou fornecer cupons onde ainda há mercados em funcionamento para que possam comprar seus alimentos e levar para casa.
Quais são os impactos da pandemia no trabalho humanitário? Primeiramente, a restrição de fronteiras fechadas tem um impacto na movimentação de funcionários de trabalho humanitário. O segundo impacto é termos que mudar as formas de assistência porque não se pode trabalhar agora em grupos comunitários grandes. E o importante para esse trabalho, além do aumento de recursos financeiros nas redes de proteção social e mais recursos para organizações humanitárias, é que os países não fechem fronteiras para o comércio de alimentos.
Em segundo lugar, o que está fazendo a ONU, por meio do PMA, é abrir corredores para passageiros e cargas humanitárias em determinados países para que não se restrinja o apoio.

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Pessoas atendidas pelo PMA em Burkina Faso, na região do Sahel Central na África, que enfrenta escalada do conflito armado, população deslocada, fome e pobreza generalizada 13.nov.19/Divulgação PMA
Por exemplo, na América Latina, foram estabelecidos corredores humanitários para a República Dominicana, para o Haiti e um na Colômbia, para a América do Sul, particularmente destinado ao apoio a migrantes venezuelanos, e outro em Honduras, para a América Central. Dessa forma, podemos repor alimentos e distribuí-los mais rapidamente nos países.
Certamente há restrições e estamos buscando alternativas que nos permitam seguir trabalhando com os beneficiários e com os governos também.
Outro elemento importante é que estamos apoiando também as próprias decisões de governos através de cooperação técnica, por exemplo, como melhorar as logísticas e identificar os melhores corredores no interior dos países e também como aumentar o número de pessoas que recebem alimentos em cada país.
Com a possibilidade de agravamento da crise alimentar, que tipo de ação é necessária? Três coisas são fundamentais. Primeiro, que os Estados aumentem o gasto social, por meio de suas redes de proteção social, particularmente nas transferências de renda, em especial para pessoas em extrema pobreza e também, provavelmente agora, para pessoas na linha da pobreza, não só em extrema pobreza. Em segundo lugar, a necessidade de aumentar os investimentos em organizações internacionais para que os países tenham também acesso a recursos novos. Em terceiro lugar, a necessidade de investimentos nas agências que respondem e atuam nesse tipo de crise, como o PMA.

RAIO-X
Miguel Barreto
Diretor regional para a América Latina e o Caribe do Programa Mundial de Alimentos (PMA), iniciou sua carreira na missão do Peru, seu país de origem, para a ONU. No PMA, já foi presidente do Conselho Executivo entre 2004 e 2006 e passou por missões em campo na Etiópia, em Honduras e na Colômbia.

Fonte: Folha de SP
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